

O Último OfícioDizem que no fim, só restará o consumidor. Quando as máquinas escreverem romances, pintarem quadros, curarem doenças e construírem cidades, o humano — esse ser de carne, desejo e memória — será apenas o que consome. Mas será mesmo?
A inteligência artificial não sonha. Não sente o gosto do café, nem o arrepio de um beijo inesperado. Ela não se encanta com o pôr do sol, nem se perde em devaneios ao som de uma canção antiga. Ela calcula, sim. Aprende, sim. Mas não deseja.
E é aí que mora a diferença. O humano consome, é verdade. Mas antes disso, ele anseia. Ele imagina. Ele sofre. Ele cria não porque precisa, mas porque não consegue evitar. Mesmo que tudo esteja pronto, automatizado, entregue em um clique — haverá sempre aquele que quer fazer com as próprias mãos. Aquele que planta uma árvore mesmo sabendo que talvez não verá sua sombra. Aquele que escreve um poema que ninguém lerá. Aquele que ama sem garantia de retorno.
Se a IA dominar todos os ofícios, talvez o último ofício humano seja justamente esse: o de ser inútil aos olhos da eficiência, mas essencial à existência.
Porque no fim, o que nos faz humanos não é o que produzimos, mas o que sentimos diante do que não pode ser produzido.
By Rick Steindorfer
Enviado por By Rick Steindorfer em 27/10/2025
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