

Entre Gerações e SilênciosEstava no meio de jovens, cercado pelo vigor dos passos que ainda não conheciam o peso dos invernos, e a pergunta que não queria calar atravessava meu pensamento como um vento antigo: eu já tinha sido jovem antes? Não apenas jovem em idade, mas em sonhos, em impulsos, em certezas que pareciam eternas. Busquei nos rostos ao redor algum reflexo do que fui, alguma centelha esquecida no tempo. Percebi que a juventude não desaparece, apenas muda de veste e aprende a caminhar mais devagar. E assim permaneci entre eles, como quem procura a própria origem dentro da própria história.
No silêncio deles, eu vi que ficavam perdidos, como navegantes sem mapa diante de mares desconhecidos. Cada olhar carregava perguntas que nem mesmo sabiam formular, e dúvidas que temiam revelar. A pressa do mundo os empurrava para frente, mas seus corações ainda buscavam direção. Vi neles a mesma inquietação que um dia habitou meus caminhos e desafiou minhas escolhas. Compreendi que o tempo não resolve todos os enigmas, apenas nos ensina a conviver com eles. E naquele instante, nossas diferenças pareciam menores que nossas semelhanças.
No início, a distância era feita de estranhamentos e de pontes ainda não construídas. Eu observava seus costumes, enquanto eles observavam minhas marcas de experiência. Havia uma linguagem invisível separando nossas margens, uma correnteza feita de gerações. Mas a escuta paciente começou a dissolver as fronteiras que julgávamos intransponíveis. A verdade compartilhada encontrou abrigo onde antes morava a desconfiança. E o respeito nasceu devagar, como a aurora que não precisa apressar a chegada da luz.
Mas depois de algum tempo, eles me aceitaram, e eu também os acolhi sem reservas. Descobrimos que a idade é apenas uma moldura e que a essência continua sendo humana. Rimos das diferenças, aprendemos com os desencontros e celebramos os encontros possíveis. Eles receberam minhas memórias, e eu recebi seus horizontes ainda abertos para o amanhã. Então a pergunta inicial perdeu a força, porque o mais importante já não era quem eu fui. Importava quem éramos juntos naquele momento, unidos pela eterna travessia do viver.
Ricardo Steindorfer Proença 19 de outubro de 2026
By Rick Steindorfer
Enviado por By Rick Steindorfer em 19/10/2026
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